Centro e Camobi concentram furtos de fios em Santa Maria, aponta mapeamento do Ciosp

Centro e Camobi concentram furtos de fios em Santa Maria, aponta mapeamento do Ciosp

Foto: Vinicius Becker

Mapeamento realizado pelo CIOSP ajuda a compreender os locais com maior número de casos

Os furtos de fios e cabos deixaram de ser episódios isolados e passaram a representar um problema recorrente em Santa Maria, com impacto direto sobre serviços públicos, estabelecimentos comerciais e residências. Embora muitas vezes tratados como crimes de baixo valor financeiro, eles provocam efeitos em cadeia que atingem diretamente a população, especialmente quando afetam escolas, postos de saúde e prédios públicos.

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Levantamento realizado a partir de registros da Guarda Municipal apontam 164 ocorrências de furto de fios ao longo de 2025.

Os dados são analisados pelo Centro Integrado de Operações de Segurança Pública (Ciosp), que passou a utilizar ferramentas de georreferenciamento e mapas de calor para compreender a dinâmica do crime na cidade. Segundo o secretário adjunto de Segurança e Ordem Pública, Sandro Nunes, a análise técnica mudou a forma de enfrentamento.

Hoje a gente não trabalha mais só com a percepção. A gente filtra as ocorrências, gera mapas e identifica onde está a maior incidência. O Centro aparece com destaque, mas o problema é espalhado pela cidade — explicou.


Onde os furtos se concentram

O mapeamento mostra que a região central lidera os registros. Na sequência, aparecem Camobi, especialmente na região leste, e bairros da zona sul, além de ocorrências pontuais em áreas da zona norte. A coordenadora do Ciosp, Camila Cardozo, detalha que a ferramenta permite cruzamentos mais precisos.

— A gente consegue filtrar por Bairro, por região, por horário e até por rua. Isso ajuda a entender não só onde ocorre o furto, mas também os deslocamentos após o crime — explicou sobre o monitoramento.

Mapa de calor ajuda a entender as regiões de Santa Maria com mais casosFoto: Vinicius Becker

Segundo Sandro Nunes, esses deslocamentos costumam seguir rotas conhecidas, como a saída do Centro em direção ao Bairro Rosário e outros pontos que facilitam a dispersão do material furtado.

O sujeito puxa o fio, a luz cai na hora. É muito rápido. Quando a equipe chega, ele já saiu com o material — relatou.


Prejuízo que vai além do cobre

Embora o valor do cobre furtado seja relativamente baixo, o impacto indireto é elevado. Nunes destaca que o dano social supera em muito o prejuízo material.

— Às vezes é um furto de R$ 500 ou R$ 600. Mas isso pode parar um posto de saúde que atende mais de cinco mil pessoas. Até o município conseguir licitar material, comprar, instalar e restabelecer o serviço, pode levar 15 dias ou mais — explicou.

Unidades de saúde, escolas e equipamentos públicos estão entre os alvos mais atingidos. Sem energia, internet e climatização, atendimentos são suspensos e aulas são interrompidas. Em alguns casos, computadores e sistemas integrados ao SUS também são danificados.

— Hoje tudo depende de tecnologia. Sem luz e sem rede, o médico não consegue atender, o sistema não funciona — completou.


Perfil dos autores e contexto social

As forças de segurança identificam que muitos dos furtos estão ligados a pessoas em situação de rua, que utilizam o cobre como moeda de troca por drogas.

— A segurança pública acaba sendo o ponto onde o problema estoura, mas ele começa antes. É um problema de saúde, de assistência social e de educação também — avaliou Sandro Nunes.

Segundo ele, o município intensificou ações conjuntas com a assistência social, oferecendo abordagens, encaminhamento para casas de passagem, atendimento de saúde e até apoio para retorno ao município de origem.

— Muitas vezes a pessoa não tem dinheiro, não tem documento, não tem condição nem de entrar em um ônibus. A gente faz esse trabalho de acolhimento, mas nem todos aceitam — relatou.

A Prefeitura passou a adotar uma estratégia integrada que reúne segurança pública, assistência social, saúde, fiscalização e meio ambiente, com foco não apenas na repressão ao crime, mas também na redução das causas que alimentam esse tipo de ocorrência.

Segundo Nunes, o entendimento é de que o problema não pode ser tratado apenas como uma questão policial.

— A segurança acaba sendo onde o problema estoura, mas ele nasce antes. É um problema social, de saúde, de educação. Se a gente não atuar na raiz, vai continuar prendendo e soltando — afirmou.


Operações integradas entre secretarias

Uma das principais frentes é a atuação conjunta nas abordagens a pessoas em situação de rua. As ações envolvem equipes da Assistência Social, Saúde, Guarda Municipal, Brigada Militar e Polícia Civil, com apoio de setores como Vigilância Sanitária e Meio Ambiente.

Durante essas ações, as equipes buscam identificar a situação de cada pessoa abordada, oferecendo encaminhamento para casas de passagem, atendimento médico, emissão de documentos e suporte social.

— Muitas vezes a pessoa não tem condição nem de entrar em um ônibus para voltar à cidade de origem. A assistência social faz esse trabalho, oferecendo banho, alimentação, documentos e passagem quando possível — explicou Sandro Nunes.

Segundo ele, parte das pessoas aceita o encaminhamento, enquanto outras recusam qualquer tipo de apoio, o que dificulta a ruptura do ciclo de vulnerabilidade.

Ação integrada com outras secretarias é realizada para diminuir número de furtos e tirar pessoas das ruasFoto: Vinicius Becker

As operações realizadas em pontos críticos, como no Km 2, são exemplos da atuação intersetorial. No local, diferentes órgãos atuaram simultaneamente após a constatação de situações irregulares, como estabelecimentos sem licença, descarte inadequado de resíduos e riscos à saúde pública.

— Ali não era só um problema de segurança. Havia interdição dos bombeiros, problemas ambientais, sanitários e nenhuma autorização de funcionamento. Cada secretaria atuou dentro da sua competência — relatou o secretário adjunto.

A presença de vários órgãos permite que a ação não se limite à retirada de pessoas ou à apreensão de materiais, mas avance para a reorganização do espaço urbano e a prevenção de novos focos de irregularidade.

A integração também envolve a Secretaria de Meio Ambiente e setores de fiscalização, especialmente no controle das recicladoras. O objetivo é coibir a receptação de material furtado e garantir que resíduos tenham destinação correta.

— Quando o poder público apreende material, ele precisa dar a destinação ambiental correta. Por isso, estamos firmando termos de cooperação com entidades habilitadas para fazer o reaproveitamento ou descarte adequado — explicou sobre as ações.

Essa etapa é considerada essencial para evitar que o material apreendido retorne ao mercado informal.

A Secretaria de Saúde atua no atendimento a pessoas em situação de rua, especialmente aquelas com dependência química. O acesso a serviços como CAPS, atendimento ambulatorial e encaminhamento para tratamento faz parte da estratégia de médio e longo prazo.

— Sem tratamento e acompanhamento de saúde, esse ciclo não se rompe — analisou sobre o caminho que as pessoas em situação de rua seguem.

A atuação integrada busca garantir que, ao invés de apenas encaminhar para a delegacia, haja oferta de atendimento clínico e psicológico quando necessário.


Tecnologia e planejamento

A integração entre secretarias é coordenada a partir do Centro Integrado de Operações de Segurança Pública (CIOSP) e do Gabinete de Gestão Integrada Municipal (GGIM). Esses espaços reúnem dados, planejam operações e avaliam resultados.

— A integração permite que a gente planeje melhor. Não é só onde ocorreu o furto, mas por que ocorreu, quem está envolvido e como agir para evitar que se repita — explicou a coordenadora do CIOSP, Camila Cardozo.

Sandro Nunes e Camila Cardozo ajudam a organizar estudos sobre pontos com maior recorrência de furtosFoto: Vinicius Becker

A troca de informações entre os serviços facilita a definição de prioridades e a mobilização rápida de equipes.

Apesar dos avanços, o município reconhece que o problema é complexo e de difícil solução imediata. A expectativa é de redução gradual dos furtos, a partir da combinação entre repressão qualificada e políticas sociais.

— Não é um problema que se resolve com uma ação simples. É um trabalho contínuo, diário, que exige integração e persistência — resumiu Sandro Nunes.

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Fiscalização de recicladoras

Uma das principais frentes adotadas é a fiscalização de recicladoras, consideradas destino frequente do material furtado. A atuação envolve Guarda Municipal, Brigada Militar, Polícia Civil, Polícia Ambiental e setores de fiscalização do município.

Recicladoras regularizadas exigem RG, CPF e filmam a transação. O grande problema são as recicladoras ilegais, que representam a maioria — afirmou Sandro Nunes.

Durante operações recentes, inclusive no Km 2, equipes encontraram estabelecimentos funcionando sem autorização ambiental, sanitária ou comercial, além de estruturas improvisadas em meio a áreas de descarte irregular.

— Não havia nenhuma condição mínima de funcionamento. Tudo era irregular. Tínhamos laudos técnicos de vários órgãos — disse.

Outro desafio é a destinação correta do material apreendido. Como se trata de resíduos, o poder público precisa seguir a legislação ambiental.

— O poder público não pode simplesmente tirar de um lugar e jogar em outro. Estamos firmando termos de cooperação com entidades para dar a destinação correta e legal — explicou Nunes.


Casos extremos e risco de morte

O avanço do problema levou a situações de alto risco. Recentemente, um homem morreu ao tentar furtar fios de alta tensão no Centro da cidade.

No dia 14 de janeiro, um jovem morreu eletrocutado no centro após tetnar furtar fios em um posteFoto: CIOSP (Divulgação)

— Impressiona o nível a que isso chegou. A pessoa escalou uma estrutura de risco extremo. É algo que chama atenção pela gravidade — comentou.


Tecnologia e integração

O enfrentamento também passa pelo uso de tecnologia. O Ciosp opera com cercamento eletrônico, monitoramento de placas e integração de dados. Segundo Camila Cardozo, uma nova plataforma está em desenvolvimento para ampliar a transparência.

— A ideia é que a sociedade consiga acompanhar as ocorrências e entender o trabalho que está sendo feito — afirmou.

As ações são planejadas no Gabinete de Gestão Integrada Municipal (GGIM), que reúne diferentes órgãos para definir estratégias.

— Não adianta achar que vamos estar em todos os lugares o tempo todo. O foco é atacar a origem, entender o processo e agir onde temos ferramentas — resumiu sobre as ações tomadas durante as operações.


Expectativa para 2026

Para este ano, a expectativa é de redução dos registros, embora o poder público reconheça que o problema não será eliminado a curto prazo.

— Não é um problema simples. É estrutural. Mas estamos atuando diariamente, de forma integrada, e acreditamos em redução significativa — concluiu.


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